Notas Finais

Para quem vive fora e passa a vida em viagens, a família é muitas vezes quem mais sente a ausência, quem mais sofre com as horas passadas longe. E, ao mesmo tempo, são eles que mantêm viva a ligação ao que nos é mais querido. Quando estamos juntos, há um tema que se impõe sempre: o Benfica.

É nos momentos partilhados à volta do clube que encontramos uma conexão ainda mais profunda, uma paixão que nos une de forma especial. Este amor à camisola que enche as páginas desta obra não é apenas meu: é da Paula, da Leonor e do Manuel, que sempre apoiaram esta paixão Benfiquista. Este livro é dedicado a eles e à força do Benfica que carregam em cada gesto.

Um amor partilhado

Quando conheci a Paula, o Benfica já era uma parte fundamental da minha vida e, para mim, qualquer grande momento tinha que passar, de alguma forma, pelo Estádio da Luz. Quando marcámos o nosso primeiro encontro, não hesitei. “O que achas de irmos ver um jogo ao Estádio da Luz?”, perguntei.

Sabia que era uma manobra arriscada. Afinal, não é todos os dias que se convida alguém para um primeiro encontro num estádio de

futebol. Mas sabia que ela era especial e que tinha de partilhar esta parte importante da minha vida com ela.

Foi nesse dia que lhe dei o meu primeiro presente. E, claro, não podia ser outra coisa: um Kit Sócio. A Paula olhou para o cartão com

um misto de surpresa e divertimento. Naquele instante, estava a jogar o tudo ou nada. Talvez um Kit Sócio do Benfica não seja o presente mais convencional para um primeiro encontro mas, para mim, fazia todo o sentido. Queria que o Benfica fosse algo a partilhar, algo que nos unisse ainda mais.

Se havia dúvidas sobre se ela se habituaria à intensidade da minha paixão pelo Benfica, essas dissiparam-se rapidamente. Desde férias cuidadosamente planeadas para coincidir com jogos fora de casa até mudanças de última hora em planos de família para podermos assistir aos jogos.

Desde 2010, ela tem o seu Red Pass e faz questão de estar no Estádio da Luz, ao meu lado e ao lado dos nossos filhos, sempre que possível. E a verdade é que ela sofre quando não pode ir a um jogo. Aquela mesma mulher que, no nosso primeiro encontro, olhava com curiosidade para as bancadas da Luz, hoje vive e respira o Benfica com a mesma intensidade que eu.

Talvez tenha sido arriscado dar-lhe um Kit Sócio como primeiro presente, mas olhando para trás, foi um risco que valeu a pena. Afinal, o Benfica não só nos uniu, como se tornou parte da nossa vida em comum.

A

O nosso Rei

O legado benfiquista que recebemos não acaba em nós, e cabenos a responsabilidade de o passar adiante, de perpetuar esse espírito que atravessa gerações. Sempre soube que, um dia, faria a minha parte, garantindo que o Benfiquismo continuaria a correr no sangue da minha família. E foi exatamente isso que senti no dia do nascimento do meu filho.

O Manuel nasceu poucos dias após a morte do Rei Eusébio, eterno símbolo do nosso clube. Naquele momento, parecia que uma era se fechava e outra se abria, e eu, cheio de orgulho e emoção, decidi fazer uma brincadeira que rapidamente ganhou proporções inesperadas. Aos meus amigos, disse que o miúdo se chamava Manuel Eusébio, em honra do maior de todos. Acrescentei que, em casa, o tratávamos carinhosamente por “o nosso rei”.

Amigos, colegas e até familiares começaram a ligar – uns para dar os parabéns pelo nome, outros para questionar se era verdade que o tinha batizado assim. A história ganhou vida própria e, por um tempo, o pequeno Manuel foi tratado por “Zebinho”.

A verdade, porém, desiludiu alguns: o nome dele é apenas Manuel. Não Eusébio, como o Rei.

Desde que o Manuel nasceu, já esteve seis vezes no Marquês de Pombal a festejar títulos do Benfica. Cada vez que lá voltamos, contamos a história do “Manuel quase Eusébio”. Esta obra que agora escrevo é também para ele, o meu Manuel, com o desejo de que possa vir a festejar muitas mais vezes no Marquês, com a mesma alegria e orgulho que eu sempre senti. Que o futuro dele seja cheio de vitórias – no futebol e na vida – e que o Benfica continue a ser uma parte importante da sua história, como sempre foi da minha.

B

A Vespa do Eliseu

Já falei da minha mulher e do meu filho. Termino com a minha filha, Leonor.

Tal como o resto da família, a Leonor também tem o seu Red Pass. Como seria de esperar, tornou-se uma Benfiquista fervorosa. Sempre foi especial vê-la crescer no meio desta paixão pelo Benfica, um amor que já se tornou uma tradição na nossa casa. Mas foi em 2022-2023 que a Leonor conseguiu realizar um sonho que, na verdade, era tanto meu quanto dela. Tinha acabado de completar 17 anos, e a prenda que escolheu foi uma moto igual à icónica Vespa do Eliseu.

Todos os Benfiquistas se lembram de quando Eliseu se tornou num símbolo das celebrações do tetra, entrando com uma Vespa encarnada pelo relvado do Estádio da Luz. Aquele momento ficou gravado na memória de todos e, sempre que o Benfica conquista um título, esperamos ansiosamente pela possível “aparição” de Eliseu e da sua moto.

A Leonor, recém-detentora da sua própria Vespa, estava determinada a honrar essa tradição. Assim, no dia em que o Benfica conquistou o campeonato de 2022-2023, lá foi ela, cheia de orgulho, levar a sua Vespa para os festejos. A moto, escolhida à imagem do clube que ela tanto ama, foi um sucesso imediato. Entre cânticos e celebrações, a Leonor percorreu as ruas com a sua Vespa, como Eliseu, saudada por todos os Benfiquistas que ali estavam.

A única regra que lhe impus foi simples: nada de piões! Mas, verdade seja dita, não precisou de fazer grandes manobras para se destacar. A presença dela, a alegria contagiante com que conduzia a Vespa e o regresso às vitórias tornaram a celebração ainda mais especial para mim.

Ver a minha filha ali, no meio dos festejos, a viver o Benfica com toda aquela intensidade, fez-me perceber que o legado Benfiquista da nossa família está seguro. A Leonor é uma Benfiquista de coração.

O Benfica sempre foi o centro da minha vida, um fio condutor que uniu família e marcou amizades, e sei que essa paixão é algo que partilho com tantos outros. Todos nós, Benfiquistas, temos em comum o desejo profundo de ver o nosso clube triunfar, de festejar lado a lado, por amor à camisola. Estas memórias encarnadas são uma forma de honrar essa lição e de partilhar alguns momentos da minha vivência benfiquista com todos.

Dedico este livro à Paula, ao Manuel e à Leonor. Embora este seja um livro para todos os que amam o nosso clube, é à minha família e ao Benfica que devo a minha felicidade.

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