A 28 de fevereiro de 1904, um grupo de dez jovens reuniu-se para almoçar em Belém. Não era uma ocasião extraordinária, antes o que faziam nos dias em que treinavam nos terrenos da CP, onde hoje se ergue o Centro Cultural de Belém.

Mas naquele dia, o destino reservava-lhes algo diferente. Após o repasto, dirigiram-se à Farmácia Franco, onde se juntaram a outros camaradas, totalizando 24. O que esses jovens desconheciam era que estavam prestes a inscrever os seus nomes numa das páginas mais marcantes da história de Portugal no século XX: a fundação do glorioso Sport Lisboa e Benfica.

O primeiro emblema, desenhado ainda em 1904, já exibia dois elementos que, até hoje, são indissociáveis da identidade do clube: a águia, símbolo de nobreza e independência, e o lema, E Pluribus Unum, a força da união. Ao longo dos seus 120 anos, o Benfica tem evoluído, sempre fiel à sua essência: eclético, popular e, acima de tudo, vencedor. Desde o primeiro dia, o clube foi democrático, característica que manteve mesmo quando Portugal não o era. O Benfica sempre soube honrar os seus princípios e, talvez por isso, nunca deixou de ser um reflexo fiel do povo que representa.

Dentro das quatro linhas, o Benfica escreveu uma história repleta de conquistas que jamais serão esquecidas. É a história de Glórias que, em momentos de genialidade e bravura, elevaram o nome do clube e fizeram vibrar milhões de corações. Glórias como Mário Coluna que, após cair inanimado no Wankdorf Stadium, passou mais de quatro minutos fora de campo a ser assistido, apenas para regressar e marcar o terceiro golo que consagraria o Benfica como campeão europeu pela primeira vez. Ou como o Rei Eusébio, no ano seguinte, a bisar no Estádio Olímpico de Amesterdão, assegurando o segundo título europeu e, ainda por cima, consecutivo.

Fora de campo, o clube soube evoluir sem nunca perder de vista as suas raízes. A dedicação e a paixão dos seus sócios, espalhados pelos quatro cantos do mundo, fazem do Benfica uma instituição ímpar. Ser do Benfica não é apenas apoiar um clube de futebol, é pertencer a uma família gigante, unida pelo seu amor incondicional ao manto sagrado. O Benfica é uma força cultural e um farol de esperança e orgulho para os seus sócios, espalhados pelo mundo fora. Essa ligação entre o clube e os seus adeptos é o que torna o Benfica tão especial e distinto. No Benfica, os adeptos são mais do que simples espectadores: são vozes ativas no destino do clube.

A dedicação e a paixão dos seus sócios, espalhados pelos quatro cantos do mundo, fazem do Benfica uma instituição ímpar.

Nem tudo foi fácil ao longo destes 120 anos de história. O Benfica enfrentou várias crises ao longo do tempo, mas conseguiu sempre superá-las e sair mais forte. Felizmente, não se antecipa nenhuma crise no Benfica atual, mas nenhuma instituição – nem uma com mais de 120 anos de história – é à prova de bala. Não é por acaso que a humildade tende a andar de mão dada com o sucesso desportivo.

A melhor forma de gerir crises passa, primeiro, por antecipá-las e, se possível, evitá-las. Quem viu Luis Enrique levar o Barcelona ao segundo triplete da sua história, em 2015, dificilmente adivinharia que, uma década mais tarde, o clube estaria praticamente falido. Por vezes, um simples erro pode pôr em jogo toda uma história de glória. Daí que a melhor forma de construir o futuro é prepará-lo.

Nas vésperas da crise financeira de 2008, era prática comum afiançar que diferentes instituições bancárias eram demasiado grandes para falhar – “too big to fail” – e que, como tal, não existiriam motivos para preocupação. A ideia era relativamente simples: algumas instituições movimentam tanto dinheiro e interesse que a sua queda seria impossível, pelos danos que a sua potencial falência causaria à economia global. Apesar da teoria, a prática veio a revelar-se muito diferente e o mundo levou longos anos a recuperar da crise iniciada pela queda do banco Lehman Brothers.

De certa forma, essa ideia propagou-se ao mundo do futebol. Com a crescente “financeirização” do desporto, alguns clubes assumiram dimensões inesperadas. Acontece que, contrariamente aos bancos, os clubes tendem a gerar emoções fortes entre os seus apoiantes. Isso é ainda mais verdade em clubes de natureza popular, como o Benfica, onde os adeptos são sócios que participam ativamente na gestão da instituição.

Goste-se ou não, à data de hoje, o futebol já não é só um desporto. É um negócio que movimenta milhares de milhões de euros todos os anos. E, como qualquer indústria que envolva somas desta dimensão, a competição é cada vez mais intensa. Isto é especialmente preponderante para um clube da dimensão do Benfica, que assume uma centralidade única no panorama futebolístico mundial, mas que conta com menos recursos que alguns dos seus competidores. Poucos clubes têm tantas conquistas, tanta história, e tanto alcance quanto o Benfica, embora estes elementos já não sejam suficientes para competir ao mais alto nível.

Aos dias de hoje, muito se fala em candidatos e putativas candidaturas à presidência do Sport Lisboa e Benfica. Todos aqueles que optam por se focar em nomes, e não em ideias, não compreendem a essência do clube que discutem. O Benfica não depende, nem nunca dependerá, de um só indivíduo. A história desta gloriosa instituição transcende todos nós e a essência do clube reside precisamente na sua capacidade de se renovar e fortalecer, através das ideias e do Benfiquismo que cada sócio traz consigo.

Como dizia Mário Wilson, “por muitos desgostos que possamos ter, valores mais altos se levantam e o valor mais alto que se levanta em termos futebolísticos chama-se Benfica”. O Benfica sustenta-se a partir da coletividade. O foco deve estar sempre nas ideias que impulsionam o clube para a frente, independentemente da sua proveniência. E, num clube com uma massa associativa com tamanho fervor, o que não faltam são ideias.

O Benfica sustenta-se a partir da coletividade. O foco deve estar sempre nas ideias que impulsionam o clube para a frente, independentemente da sua proveniência.

O Benfica corre-me no sangue. Para mim, como para tantos outros, ser Benfiquista é mais do que uma escolha – é uma herança, uma tradição que atravessa gerações, como se fosse um código genético que define quem somos. É uma ligação que vai além das quatro linhas: é a soma das memórias que partilhamos com aqueles que amamos. E quando penso no futuro do clube, é impossível não me lembrar das minhas próprias histórias – grandes e pequenas – que me moldaram enquanto Benfiquista.

Cresci a sentir o Benfica como parte de mim, mas a verdade é que só pude oficializar essa ligação quando consegui o meu primeiro emprego, ainda estudante, como bombeiro municipal em Abrantes. A vida é feita de escolhas, e quando pude escolher, não tive dúvidas. Quis passar de adepto a sócio. Como tantos outros benfiquistas, dedicava uma parte significativa do meu rendimento ao clube, e fazia-o com um orgulho imenso.

Com esse pequeno salário, não só pagava as quotas como também comecei a ser mais assíduo a acompanhar a equipa. Fiz várias viagens para ver jogos na antiga Catedral, sempre com os sacrifícios que só os benfiquistas de fora de Lisboa conhecem. A camisola da capa desta obra é da época de 1989/1990, a minha primeira camisola. Foi a última vez que o Benfica chegou a uma final da Champions, um feito que todos continuamos a sonhar em repetir. Representa um passado não distante, um símbolo de glória ao qual devemos ambicionar voltar, recordando sempre que cada conquista do passado nos inspira a lutar por um futuro ainda mais vitorioso.

Ao longo dos anos, aprendi que ser do Benfica é mais do que ganhar ou perder. É estar presente, é sentir, é vibrar com a equipa em qualquer circunstância. E, por mais que o futebol tenha mudado desde a primeira vez que entrei num estádio, nesse dia aprendi que o Benfica não é apenas um clube. O Benfica é uma resistência, uma paixão que nunca esmorece, mesmo quando o caminho é difícil, e esse caminho faz-se em família, unidos, partilhando vitórias e derrotas lado a lado, sempre com o mesmo amor.

A vida é feita de escolhas, e quando pude escolher, não tive dúvidas. Quis passar de adepto a sócio. Como tantos outros Benfiquistas, dedicava uma parte significativa do meu rendimento ao clube, e fazia-o com um orgulho imenso.

Há cinco anos, decidi imprimir uma vertente pública ao Benfiquismo que sempre guiou a minha vida, com um artigo que, ainda hoje, é frequentemente mencionado. Nesse artigo, identifiquei uma visão muito clara para o sucesso do Benfica: vencer tanto quanto possível. A prioridade dos Benfiquistas sempre foi e sempre será o sucesso desportivo. O Benfica não veio ao mundo para colecionar medalhas de participação.

Já votei em Presidentes eleitos, incluindo o atual, e já apoiei candidatos que perderam as eleições. Mais do que discutir preferências individuais, o que realmente importa é contribuir para o futuro do clube que nos une. E, com esse objetivo em mente, este é o meu contributo para que o sucesso desportivo e a sustentabilidade financeira sejam vistos como dois lados da mesma moeda e não duas visões distintas para o clube.

Desde que comecei este trajeto, tive o privilégio de descobrir novas realidades e de aprender incessantemente sobre gestão desportiva. No universo benfiquista, tive a oportunidade de dialogar com adeptos de todas as gerações, ouvir as suas histórias e compreender as suas expectativas. Já fora do Benfica, tive a oportunidade de me reunir com especialistas para melhor entender as complexidades do mundo do futebol moderno e ser confrontado com as realidades dos diferentes clubes. Cada uma destas interações enriqueceu a minha visão sobre o clube e sobre como podemos continuar a crescer e a melhorar.

Nas Casas do Benfica, testemunhei a abnegação dos nossos adeptos que, com recursos limitados, se esforçam por dinamizar a vida do clube e manter viva a chama imensa nas suas localidades. Estes espaços são verdadeiros santuários de paixão e dedicação, onde se respira Benfica todos os dias. Enfrentam, contudo, desafios significativos, que requerem respostas proativas por parte do clube, no sentido de fortalecer estas coletividades, que são tão fundamentais para a ligação entre o clube e os seus adeptos dispersos pelo mundo.

Também com a Fundação Benfica pude testemunhar o tremendo impacto que o Benfica pode ter, com projetos que mudam a vida de milhares de pessoas e promovem valores como a solidariedade, a inclusão e a responsabilidade social. Vi de perto como o desporto pode ser um poderoso instrumento de mudança, inspirando jovens e ajudando comunidades carenciadas.

Aliando a estas experiências a minha carreira profissional, e tendo passado por algumas das maiores empresas do mundo, acredito que acumulei suficiente conhecimento sobre as melhores práticas de gestão e de gestão desportiva para adaptá-las à nossa realidade, sempre com o objetivo de tornar o Benfica mais forte e mais competitivo.

Hoje, estou mais convicto do que nunca de que, com uma gestão eficiente, inovadora e alinhada com os valores do Benfica, podemos fortalecer o nosso clube, garantindo que continuamos a honrar a nossa rica história e a construir um futuro repleto de conquistas. Mas, para isso, precisamos da contribuição de todos.

A vivência de um Benfiquista que vai à Luz de 15 em 15 dias é muito diferente da de um sócio que reside a largas centenas de quilómetros, que apenas consegue esticar o seu orçamento o suficiente para ir ao estádio uma vez por ano. É natural que estes dois adeptos vejam o clube de forma diferente, mas ambos têm seguramente contributos válidos para a melhoria do mesmo. Cada Benfiquista desempenha um papel crucial, quer seja através do acompanhamento da equipa nos jogos fora, participando ativamente nas Casas do Benfica ou simplesmente apoiando a equipa à distância. É essa uma das nossas maiores riquezas.

O Benfica não veio ao mundo para colecionar medalhas de participação. Pouco interessa quem é o Presidente do clube. Interessa é que o Benfica ganhe!

O Benfica não se faz nos corredores da sua SAD, nem se decide apenas nas reuniões da sua administração. Não se faz, tampouco, em grupos de WhatsApp onde bolhas enclausuradas repetem ad aeternum as mesmas ideias, para gáudio de uma turbe embevecida com a eloquência dos seus mais temíveis guerreiros. O verdadeiro espírito do Benfica vive-se e respira-se na paixão dos seus adeptos, na dedicação incansável dos seus sócios, e na união que transcende fronteiras e gerações.

Quem abrir o Facebook ou o Twitter encontrará realidades radicalmente diferentes. No espaço virtual, como no espaço físico, é evidente o vendaval de emoções que gera o maior clube de Portugal. Mas é fundamental que não esqueçamos que é muito mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa. A diversidade de opiniões deve ser vista como uma força, não como uma fraqueza. Devemos aproveitar essa pluralidade para crescer e encontrar soluções inovadoras, sempre com o objetivo comum de ver o Benfica triunfar. Somente unidos, respeitando as diferenças e valorizando cada contributo, poderemos continuar a construir um clube forte e vencedor, à altura da nossa história e das nossas ambições. Nesse contexto, pouco interessa quem é o Presidente do clube. Interessa é que o Benfica ganhe!

Não há dúvidas sobre qual é o core business do Benfica. Embora possamos encontrar diferentes formas de traduzi-lo, a forma mais simples de o descrever é esta: “a indústria de pôr a bola na baliza”. Para tremenda deceção do Mauro mais jovem, não estou em condições de calçar as chuteiras e contribuir para essa missão. Mas numa indústria tão competitiva quanto a do futebol, precisamos de todas as vantagens que consigamos assegurar.

É aí que entramos na questão dos ganhos marginais. Será que uma melhor envolvência para a experiência pré-jogo nos garantiria automaticamente a tão desejada terceira Champions? Não me parece que assim fosse, mas o certo é que quanto mais o Inferno da Luz se aproximar do seu nome, mais perto estaremos de vencer partidas. Se será a expansão da marca a marcar um hat-trick? Seguramente também não, mas talvez esta permita aumentar as receitas de merchandising de forma a permitir que conservemos as nossas pérolas por mais tempo. Num desporto de margens finas, qualquer diferença pode vir a importar.

Esta verdade de La Palisse ganha importância no contexto atual do futebol moderno, onde a proposta da Superliga abriu uma caixa de Pandora que dificilmente conseguiremos voltar a fechar. Entre o novo formato da Liga dos Campeões e a primeira edição do novo Mundial de Clubes, as alterações ao panorama competitivo criarão um fosso entre os emblemas mais ricos e os restantes. Embora esta verdade possa chocar os mais românticos, é hoje incontestável – e seria negligente o Benfica não se preparar para a enfrentar.

Também a nível dos direitos televisivos presenciamos a uma das maiores revoluções do panorama audiovisual desde o aparecimento da internet. Com a ascensão das plataformas de streaming e a crescente popularidade das transmissões online, o modelo tradicional de televisão está em declínio. As transmissões CTV (Connected TV) estão a ganhar terreno, oferecendo novas oportunidades de receita e uma forma mais direta de alcançar os adeptos. Assumir esta nova realidade é um imperativo para qualquer clube que deseje manter a sua competitividade e assegurar um futuro sustentável.

Por todas estas razões, precisamos de saber estar à altura dos desafios que enfrentamos. Nem o Benfica nem as instituições que regem o futebol português podem aceitar andar sempre a reboque, limitando-se a tentar sobreviver. Pela sua grandeza, um clube como o Benfica não se pode limitar a reagir. Precisamos de liderar e de constituir um exemplo para os restantes clubes. Só assim estaremos a honrar a nossa história e os gigantes que nos ergueram.

Pelo tamanho do mercado em que nos inserimos, o Benfica nunca poderá aspirar a inserir-se no grupo de clubes mais ricos do planeta – mais uma razão para sermos dos mais bem geridos.

Desengane-se quem pense que o futuro do clube não está em jogo perante tamanhos desafios. Não podemos ficar para trás. Precisamos de agir de forma proativa, adotando estratégias que nos permitam tirar proveito destas mudanças e assegurar que o Benfica continua a ser uma força dominante no futebol mundial.

Embora o meu pragmatismo me obrigue a identificar as vitórias como o principal objetivo do clube, resta a questão fundamental de como fazê-lo. Precisamos de um modelo ancorado em princípios sólidos de gestão e inovação. O controlo das finanças, o investimento em infraestruturas, a valorização da formação e o fortalecimento da nossa massa associativa são fundamentais. A sustentabilidade deve ser a pedra angular da nossa estratégia, assegurando que o Benfica não apenas sobrevive, mas prospera a longo prazo.

Pelo tamanho do mercado em que nos inserimos, o Benfica nunca poderá aspirar a inserir-se no grupo de clubes mais ricos do planeta – mais uma razão para sermos dos mais bem geridos. A eficiência, a inovação e a capacidade de adaptação serão as nossas maiores armas. Devemos aprender com os melhores, adaptar essas lições à nossa realidade e implementar práticas que nos permitam maximizar os nossos recursos. Somente assim poderemos continuar a crescer e a conquistar títulos, honrando as expectativas dos adeptos.

Estes são alguns dos pontos que fui discutindo ao longo dos últimos anos. A par de uma presença pública na televisão e jornais, enveredei agora pela redação desta obra, convicto de que o dever de cada sócio do Benfica é contribuir para o sucesso do clube. Este livro é uma obra de labor conjunto, resultado de inúmeros contributos e ideias que não são apenas minhas. Cada página reflete o coração e a alma de muitos Benfiquistas que partilharam as suas visões e esperanças.

Este livro é uma obra de labor conjunto, resultado de inúmeros contributos e ideias que não são apenas minhas. Cada página reflete o coração e a alma de muitos Benfiquistas que partilharam as suas visões e esperanças.

Disponibilizo este trabalho em formato de livro, disponível a preço de custo de impressão em formato físico e grátis online, incentivando a militância benfiquista. Estará disponível em diversos formatos, respeitando a diversidade de idades e formas de consumir informação.

Pela minha parte, seja nas rulotes, numa Casa do Benfica, nos mídia ou nas redes sociais, continuarei sempre disponível para debater com Benfiquistas. Onde quer que seja, serei sempre pela defesa do Benfica, procurando honrar o legado daqueles que nos precederam, trabalhando para construir um futuro ainda mais glorioso. Sempre por amor à camisola.